quinta-feira, 2 de julho de 2015

Ngugi wa Thiong’o é confirmado para a Flip 2015

Ngugi wa Thiong’o é confirmado para a Flip 2015

Queniano terá seus livros publicados no Brasil pela primeira vez (foto de Daniel Anderson)

Com uma trajetória dividida pela língua nativa e a língua dos colonizadores britânicos, pela identidade local e a identidade imposta pela colonização, pela literatura e o ativismo político, o escritor queniano Ngugi wa Thiong’o (Kamirithu, Quênia, 1938) vem ao Brasil pela primeira vez para participar da Flip 2015, que acontece de 1° a 5 de julho, em Paraty.

Cotado para o Nobel em 2010 (vencido por Mário Vargas Llosa), o escritor terá suas obras publicadas pela primeira vez no Brasil. Em junho, a Alfaguara lança Um grão de trigo, sobre o processo de independência do Quênia, obra publicada originalmente em 1967, que o alçou à elite mundial das letras. Já na ocasião da Flip, a Biblioteca Azul lança as memórias do autor, Sonhos em tempo de guerra.

O escritor cresceu na região de Limuru, no Quênia, demarcada como “Terras Brancas”, de propriedade de colonizadores britânicos, onde foi vítima da violência da colonização inglesa, das guerras locais e da Segunda Grande Guerra (1939-1945), na qual os quenianos, apesar de lutarem como os soldados ingleses, foram novamente prejudicados: “Os soldados ingleses que foram para a guerra foram premiados com terras tomadas dos africanos”, disse ao The Guardian.

Como um nativo africano em um território dominado pela Inglaterra, conviveu com todas as formas de discriminação e violência impostas pelos britânicos: o apartheid, a proibição do sexo e casamento entre brancos e negros, a criação de classes sociais nos trens e escolas a partir das origens do cidadão - a primeira classe para os ingleses; a segunda para os indianos imigrantes; a terceira para os africanos.

Na escola, comparada por ele a uma prisão, foi proibido de falar sua língua nativa, forçado à circuncisão e à conversão pelo batismo na Igreja da Escócia, onde recebeu o nome James.

Formado em inglês em 1963 pela Universidade de Makerere, em Uganda, estreou na literatura no ano seguinte com Weep not, Child, o primeiro livro em inglês publicado por um autor da África Oriental.

Em 1977, renunciou ao catolicismo, à língua e à identidade inglesa, abandonando o nome de batismo na igreja escocesa.  A opção por escrever em kikuyu o romance Petals of Blood, sob a justificativa de que esta é a língua que seu povo é capaz de entender, o leva a ser censurado e preso. Na cadeia, como preso político, escreveu no papel higiênico o romance Devil on the cross, publicado em 1982.

Em 2006, após quase vinte anos voltado ao ativismo político, o autor retornou à literatura com a publicação de um de seus romances mais importantes, Wizard of the Crow, uma sátira política de mais de 700 páginas passada na República de Aburria, país fictício com muitas semelhanças com a realidade com a qual o autor conviveu ao longo de sua vida e que trará para a Flip.

Ngugi em 5 datas
1938. Nasce em Kamirithu, no Quênia.
1950. É forçado à conversão ao catolicismo e à identidade inglesa.
1977. Renuncia à identidade inglesa e ao catolicismo. Censurado e preso por escrever em kikuyu.
1992. Torna-se professor de literatura comparada na Universidade de Nova York
2006. Volta à literatura, após vinte anos, com o romance Wizard of the Crow

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