quinta-feira, 2 de julho de 2015

Biblioteca de centro de internação de adolescentes abre as portas para moradores do Barreiro

Biblioteca abriu um espaço especial para a literatura entre os livros didáticos, conquistando leitores na comunidade
A Rua Manjericão, no Bairro Lindeia, na Região do Barreiro, serve de divisa entre os municípios de Belo Horizonte e Contagem. Foi caminhando por ali que Kátia Cilene, hoje com 37 anos de idade, decidiu retomar os estudos, depois de se tornar uma devoradora de livros. Como não tinha recursos financeiros para comprá-los, precisava tomar emprestado em uma biblioteca pública. O equipamento estava disponível num local improvável: o centro de internação de adolescentes em conflito com a lei da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), situado na mesma rua.
Mãe de duas filhas, de 11 e de 15 anos, Kátia havia desistido da escola na adolescência, quando cursava o primeiro ano do Ensino Médio. Com 12 anos de idade na época, descobriu ser portadora de ceratocone, uma doença que afeta a visão progressivamente.  Não teve forças para superar a dificuldade. Passou por dois transplantes de córnea, em 2007 e 2011, porém houve rejeição.
O amadurecimento e a maternidade mudaram a disposição de Kátia. Em 2012, a título de acompanhar as filhas, tornou-se frequentadora da biblioteca do centro de internação. Mergulhou nos livros, a despeito de conservar apenas 20% da visão. Foi o impulso que precisava para matricular-se no programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santo Agostinho, no Barreiro, onde conseguiu concluir o Ensino Médio.
“Os livros daqui (da biblioteca) são um presente, funcionam para mim como uma forma de superação. A vontade de completar os estudos nasceu aqui, junto a uma destas estantes, quando eu buscava novas leituras”, lembra, emocionada. Ela usava um banquinho dobrável para sentar bem próxima do quadro, e dessa forma copiar a matéria. “Muitos livros indicados e cobrados pelos professores eu já havia lido, graças à biblioteca. Isto me ajudou bastante”, conta.
Oportunidade
Além de Kátia, 25 moradores da vizinhança tomam livros emprestados da biblioteca regularmente. O equipamento foi criado em 2008 e, por necessidade de luz e ventilação, literalmente abriu janelas e uma porta para a comunidade. Surgiu da adaptação de um antigo almoxarifado do centro de internação que só podia ser acessado a partir do interior do edifício.
Do lado inverso, os adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa passaram a ter a oportunidade de olhar para a rua nas visitas à biblioteca. Inicialmente, isso foi um fator de dispersão, logo corrigido pela auxiliar educacional Rosânea Marques Batista. Responsável pelo acervo de mais de 6 mil títulos, ela lança mão de uma analogia para chamar a atenção dos rapazes.
“Digo a eles sobre as inúmeras janelas para o mundo, à disposição deles, nas estantes. Depois de enamorados com as letras, raramente voltam o olhar para a rua”, diz Rosânea. Mas o contato com a comunidade é estimulado de outro modo. A cada quarta-feira, quando ocorre o atendimento ao público externo, um adolescente do centro é escalado. Sua função é indicar livros e ajudar os moradores do bairro a localizá-los.
Literatura e pedagogia
Desde os primeiros exemplares, trazidos pela procuradora da Justiça do Trabalho Maria Amélia Bracks Duarte, que também doou estantes e computadores, o acervo da biblioteca abriu um espaço especial para a literatura entre os tradicionais livros didáticos. Foi essa característica que conquistou leitores na comunidade, como Elcione Mendes da Silva. Ela conta que leva para casa de dois a três livros por semana.
O último livro que tomou emprestado foi ‘O Apanhador no Campo de Centeio’, obra famosa do norte-americano J.D.Salinger. “São raras as bibliotecas comunitárias na região. Tínhamos três, que fecharam. Hoje, felizmente, ainda temos esta, porque livro é caro e adoro ler”, diz Elcione.
O diretor-geral do Centro de Internação, Gerson Raimundo da Silva, observa que a biblioteca é um espaço para a realização de atividades pedagógicas diversas para os adolescentes, entre elas a de atender a sociedade, para onde vão voltar depois do cumprimento da medida socioeducativa.
“Este é um espaço vivo no dia a dia dos adolescentes. A bibliotecária faz leituras coletivas com os meninos e aos poucos eles vão se apaixonado pelos livros. Ser escolhido para atender a população é um prêmio para eles.”

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