Procura-se um cão velho, surdo e com defeito no coração


Por ELIANE BRUM*
Um drama se desenrola em Porto Alegre desde os primeiros segundos de 1999. Uma tragédia entre um homem e o seu cão. Embora não se saiba exatamente se é o cão que pertence ao homem, ou o homem é que pertence ao cão. O fato é que homem e cão estão ligados por fios invisíveis. Tão fortes, tão fundos, que o homem não se importa se o acham excêntrico, se os seus iguais gargalham ou sentem pena. Não se importa nem mesmo se o chamam louco.
No espocar dos foguetes do réveillon, o cão assustou-se com tantas cores, com a alegria desmedida das casas, e mergulhou nas ruas. Quando o homem chegou, uma hora depois da virada do ano, já não encontrou o cão. Iniciou então sua longa jornada noite adentro.
* Na foto o cão que se perdeu, em junho de 1999, e nunca mais foi encontrado
Que dupla faziam o homem e o cão. Porque o homem é bem-nascido, bem-vivido e bem-aparentado. Se chama Mario Sesta, tem 59 anos, e muitos o conhecem dos tempos em que foi procurador-geral do Estado, nos governos de Euclides Triches e de Amaral de Souza. Muitos o conhecem dos palcos do Direito Público. Um homem de gosto adestrado pela educação, cercado por objetos de arte, pela obra de Jorge Luis Borges, por boa música, bons vinhos e boa comida. E o cão, ah, o cão.
O cão é um ninguém. Dá ares de perdigueiro, mas duvida-se que em algum remoto dia tenha apresentado o porte garboso, cada músculo a postos, destes caçadores caninos. Tem feia cicatriz na pata traseira esquerda e não se preocupa em escondê-la. Tem um coração que guarda tantos sobressaltos que volta e meia ameaça encerrar o expediente. Tem uns olhos sem idade que viram mais do que deveriam nas noites de vadiagem.
Quando se conheceram, seis anos atrás, o homem pensou que era um fantasma. Acabara de estacionar o carro na Avenida Nilo Peçanha e o cão materializou-se à sua frente, as costelas pontudas esticando o pêlo em branco e preto. Se encararam. O olhar do homem era estupefato. O cão tinha aquele olhar de baixo para cima, acostumado a antecipar o golpe. E a dor que vem em seguida. Olhar de náufrago que queimava o homem.
Foi assim que ele interpretou o olhar do cão. O cão viu nele algo que ninguém mais vira. E entre todos os homens do mundo, o escolheu para salvá-lo. Embora até hoje não seja muito claro se foi o homem que salvou o cão. Ou o cão que salvou o homem. O cão subiu no carro e aninhou-se no banco estofado como se tivesse nascido ali. E foi assim que a vida começou.
Que dupla passaram a fazer o homem e o cão. O homem batizou-o de Bonzinho, porque não poderia haver outro nome para ele. Mas o cão jamais descobriu que era esse o seu nome, porque Bonzinho era surdo. E os dois, homem e cão, só se comunicavam por sinais. E por olhares. Bonzinho tinha as pernas tremulentas de velho e jamais corria. No máximo, caminhava mais rápido. E quando passeava pela mansão do homem, sua desconcertante imagem em meio ao luxo, o homem precisava amparar suas patas para que não aterrissasse em humilhante pose.
Todos os dias, o cão esperava o homem para o momento solene em que ganhava um biscoito. Sem um latido, uma palavra. Todas as noites, quando encontrava o portão aberto, Bonzinho partia e dava uma volta na quadra. Era um acordo tácito entre os dois, homem e cão. Minutos mais tarde, Bonzinho latia três vezes, ofegante por causa da insuficiência cardíaca, e o homem adiava o seu sono para receber o cão.
Nenhum dos outros seis cachorros do casarão do Cristal tinha qualquer semelhança com Bonzinho. Nem mesmo uma mera coincidência. É dessa singularidade que surgiu a única fotografia do cão. Quando o homem comprou uma espuma para que cada um deles pudesse salvar o pêlo do piso glacial do inverno, só Bonzinho manteve seu castelo intacto. Escalou a nova cama, enrodilhou-se como um feto e desferiu um olhar de gratidão eterna. E o homem cristalizou a alma do cão. É ela, colorida e impressa em cartazes, que circula pela cidade há cinco meses.
Depois que o cão partiu, são poucos que entendem o homem. Nas primeiras 15 noites ele procurou Bonzinho por casas, terrenos, morros, vilas e montes de lixo da Zona Sul. Buscava o corpo do cão no meio-fio. Pranteava a sua lembrança pelas madrugadas. Achou que era pouco. Mandou imprimir 15 mil panfletos e cartazes, confeccionar 20 faixas. Distribuiu de porta em porta ele mesmo. Casas, lojas, guaritas de vigias. Colocou anúncios em rádios, nos jornais. Pensou que podia fazer mais. Contratou quatro motoboys para circular pela região procurando e distribuindo volantes pelas igrejas, pelas escolas. Mais duas moças foram encarregadas de telefonar para todas as casas em um raio de dois quilômetros e meio. Ainda não pareceu suficiente. Avisou a Associação dos Veterinários. Pediu ajuda aos entregadores de gás e aos leituristas do Departamento Municipal de Água e Esgoto. Em sua saga pelos morros da cidade, descobriu que os pobres são mais solidários do que os ricos. E agora um exército de voluntários peregrina pela Região Metropolitana em busca do amigo do homem.
Atormentado pela imagem do cão agonizando num meio-fio, buscando seus olhos sem encontrar, procurou um parapsicólogo. Depois consultou outro e ainda outro. Os três garantiram que Bonzinho está vivo e passa bem. E o homem seguiu com seu calvário. Verificou pistas falsas, abateu-se com trotes. Ofereceu polpuda gratificação. Prometeu buscá-lo em qualquer parte do mundo, pagar o dobro se tivesse sido vendido, substituir por animal com pedigree, de qualquer raça, qualquer preço. Mas o cão segue desaparecido como se jamais houvesse pertencido a esse mundo.
Essa é a história de um homem órfão de seu cão. E de um cão órfão de seu homem. E que dupla faziam esses dois. No mundo em que o homem vive, Bonzinho não valeria um tostão. No coração do homem, Bonzinho não tem preço porque caro demais. Essa é a estranheza dessa história de amor. Se esse é um mundo onde homens valem pelo que têm – e não pelo que são. Imagina um homem que ama seu cão pelo que é – e não pelo pedigree que tem. Oferece um campeão em troca de um esgualepado, um vencedor em troca de um derrotado. E mais uma gratificação. Assim, antes de pronunciar a loucura, lembre que entre os mistérios do mundo a insanidade está onde menos se espera. E raramente onde parece estar.
Desde os primeiros segundos do ano, um homem solitário procura seu cão pelas madrugadas da cidade. Bonzinho é velho, surdo e tem defeito no coração. Dá ares de perdigueiro e caminha mal. Tem um lado com bolinhas pretas e miúdas e, no outro, duas bolotas negras e maiores. É meigo, manso e sofrido. Tem uma cicatriz na pata traseira esquerda. Olha de baixo para cima, esperando mais um chute do que um carinho. Se você o encontrar, não o perca. Ele é o amigo de um homem. E que dupla eles fazem.
* Texto publicado no jornal Zero Hora, em 5 de junho de 1999

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Tecnologias aplicadas à segurança pública garantiram a estabilidade da redução da criminalidade em 2021 no Pará