Jovens brasileiros ganham bolsa para participar da Assembleia da Juventude na ONUpor ONU Brasil |
Quatro jovens brasileiros ganharam uma bolsa para participar da 22ª sessão da Assembleia da Juventude na ONU, em Nova Iorque. O evento ocorreu entre os dias 9 e 14 de agosto.
Eles foram selecionados pelo programa de bolsas “Jovens na ONU”, cujo objetivo é levar jovens de baixa renda que estejam envolvidos em trabalhos comunitários à conferência mundial, fornecendo todos os subsídios financeiros necessários.
Dalvana Lopes, de 26 anos, é professora de Inglês e foi a única mulher do grupo de brasileiros selecionados. A jovem, que é natural de Eldorado, região Sul de MS, e teve toda sua formação no ensino público, conta que começou a “pular de alegria” quando viu o seu nome na passagem “São Paulo – Nova Iorque”.
“Eu fiquei muito feliz. Não só por ter essa experiência, mas por tudo o que ela representa: porque eu sou uma mulher negra, do interior do país, e posso mostrar para as pessoas que vieram da mesma realidade que a minha – do interior e das escolas públicas – que é possível alcançar seus objetivos com dedicação e foco”, disse.
Em 2017, Dalvana criou o projeto “Teaching for Teachers”, uma iniciativa que visa ensinar professores da rede pública as habilidades necessárias para o domínio de um novo idioma. Ela explicou que a troca de experiências na Assembleia da Juventude ampliou seus conhecimentos sobre como aplicar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas no dia a dia e, assim, continuar fazendo a diferença na vida das pessoas.
“Depois da conferência, eu resolvi transformar o 'Teaching for Teachers' no 'Teaching Folks', um projeto que propõe trazer professores nativos da língua inglesa para trabalhar no Brasil”, contou, acrescentando que a ideia se relaciona diretamente com os ODS.
“Os ODS fazem com que a gente perceba o nosso papel no mundo a partir da premissa de 'pense global e aja local'. É exatamente isso que eu estou fazendo: ao trazer estrangeiros para o interior do estado, eu tenho uma iniciativa baseada em objetivos globais, mas que age de maneira localizada para mudar a vida do jovem do interior do Mato Grosso do Sul”, explicou. Segundo ela, a previsão é de que o projeto tenha início no primeiro semestre de 2019.
Marcone Ribeiro, de 22 anos, foi o único nordestino entre os bolsistas. Nascido e criado no bairro do Coque, na periferia de Recife, ele se destacou durante o processo seletivo pelo trabalho que faz dentro de sua comunidade - uma das mais carentes da capital pernambucana. Em março deste ano, o jovem passou a lecionar inglês para pessoas da vizinhança, numa sala de aula cedida pela creche do bairro.
“A comunidade onde nasci é conhecida pelo histórico de violência e criminalidade. Eu comecei a dar aulas porque eu percebi que as pessoas têm muita dificuldade dentro do mercado de trabalho justamente por causa do local onde elas vivem, e eu sei o quanto o inglês foi uma ferramenta transformadora para mim”, relatou. O rapaz, que está se graduando em Relações Internacionais, contou que a ideia de repassar o conhecimento surgiu em 2012, logo após realizar um intercâmbio para o Canadá através do Programa Ganhe o Mundo, oferecido a alunos da rede pública de Pernambuco pelo governo estadual.
Para ele, a experiência na Assembleia da Juventude teve um impacto agregador. “Eu conversei com pessoas de diversos segmentos; pessoas que trabalham com investimentos em projetos sociais, que têm trabalhos parecidos com o meu, e que me ajudaram a entender como posso melhorar ou impactar mais pessoas com o meu próprio projeto”.
Marcone afirmou ainda que “desabou em lágrimas” no Festival Cultural do evento – uma noite de cerimônia em que todos os jovens carregam suas bandeiras. “Foi um momento muito marcante, porque eu me vi representando a minha comunidade, que é tão criminalizada e apontada dentro do próprio Estado”, confessou.
Ao voltar para o Brasil, ele criou o projeto “O Coque Connecta”, para gerar novas oportunidades dentro do bairro através de empreendedorismo e cursos profissionalizantes. “Quero inserir acompanhamento psicológico, contato com a arte, debates e participação social e em outros projetos, para que eles também se enxerguem como atores transformadores”, afirmou.
Ao contrário de Marcone, esta foi a primeira viagem internacional do selecionado de Belém (PA), Henrique Sampaio. O jovem, de 23 anos, obteve destaque por estar à frente de um projeto de atendimento jurídico gratuito a comunidades ribeirinhas no Pará. Após a Assembleia da Juventude, ele criou o Politikon, um canal digital para levar conhecimento jurídico ao máximo de pessoas possível, e com linguagem acessível, para que elas possam conhecer e lutar por seus direitos.
“O contato com pessoas tão jovens e comprometidas com um mundo melhor me fez perceber o quanto eu ainda posso contribuir. A troca de experiências com outros jovens me inspirou a lutar mais e mais pela melhora da minha comunidade”, disse.
A Assembleia da Juventude é organizada pela Friendship Ambassadors Foundation (FAF), uma organização sem fins lucrativos afiliada ao Departamento de Informação Pública das Nações Unidas (UNDPI). Durante a conferência, jovens de todo o mundo participam de palestras, workshops e debates sobre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS) para que, ao retornarem para seus países, possam levar novas experiências e perspectivas para promover projetos em suas próprias comunidades.
Para Tarso Oliveira, o selecionado do Rio de Janeiro (RJ), de 26 anos, a experiência no evento da ONU ajuda a abrir portas para os jovens em início de carreira. “Ir à Assembleia da Juventude dá um certo tipo de confiança ao empreendedor. Ter vivido isso me ajudou a ter uma outra perspectiva de mercado; de saber que os meus projetos podem se aplicar em outros lugares”, observou.
Tarso, que já estava envolvido no projeto “Social Good Brasil” - uma ONG que usa tecnologia para impacto social no Brasil - desenvolveu, a partir dos conhecimentos adquiridos na conferência, o “Troca Justa” - uma empresa que cria projetos de impacto social sustentável com fins lucrativos. “Criamos um sistema de geração de renda para suprir as necessidades básicas de trabalho, moradia e saúde para pessoas em situação de rua no Rio de Janeiro”, declarou.
Idealizado e criado pela embaixadora da Assembleia da Juventude no Brasil, Susana Sakamoto, e apoiado pelo Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio), o programa “Jovens na ONU” visa garantir maior diversidade e representatividade da delegação brasileira na conferência mundial. Ao todo, 1 mil brasileiros já foram beneficiados com o programa, devido às ações pós-conferência desenvolvidas pelos bolsistas.
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