Psicologia
evolucionista
Revista Psique
Ciência e Vida
O comportamento humano no tabuleiro
Jogos como "War" são muito mais do que simples atividades lúdicas. Podem refletir características psicológicas, como busca de estratégias, cooperação e competitividade
Por Tiago José Benedito Eugênio
O comportamento humano no tabuleiro
Jogos como "War" são muito mais do que simples atividades lúdicas. Podem refletir características psicológicas, como busca de estratégias, cooperação e competitividade
Por Tiago José Benedito Eugênio
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A cooperação e a trapaça estão no centro do
comportamento social humano. Sob o ponto de vista evolutivo, o ato de
cooperar implica custos para o executor e benefícios para quem recebe a
ajuda, enquanto a trapaça é compreendida quando alguém não retribui um favor
ou àqueles que retribuem, mas oferecem muito menos do que recebem. Ou ainda
quando alguém usufrui de um benefício sem pagar os devidos custos. É dessa
forma que podemos compreender a cooperação e a trapaça como extremos de um continuum
que envolve as relações e os jogos sociais.
Nossa espécie é extremamente curiosa e lúdica. Não
importa onde o indivíduo nasça e se desenvolva, participar de jogos é uma
característica predominante nas crianças e não está ausente entre os adultos.
Na maioria dos jogos, um indivíduo interage com uma ou mais pessoas. A
interação pode ser de natureza cooperativa, na qual os indivíduos são
parceiros e cooperam uns com os outros, ou competitiva, em que os pessoas ou
grupos são adversários e competem entre si.
Segundo a teoria elaborada por John Von Newmann e Oskar
Morgenstern, jogos cooperativos são aqueles de "soma não zero", nos
quais o fato de um jogador ganhar não é necessariamente ruim para o(s)
outro(s). Nesse tipo, os interesses dos participantes se sobrepõem. Por outro
lado, jogos competitivos são aqueles cuja soma é zero, isto é, a vitória de
um competidor é a derrota do outro, como o tênis, o xadrez e a sinuca.
Contudo, no mundo real, as nossas relações não costumam
ser dicotomizadas desse modo. Em uma relação, podemos participar dos dois
tipos de jogos. Por exemplo, dois sócios de uma empresa, às vezes (mas não
sempre) têm interesses sobrepostos. Na medida em que os sócios tenham
interesses comuns - ambos almejam uma receita mensal maior e a expansão da
empresa -, seu relacionamento é um jogo de soma não zero mais intenso. O
resultado pode ser ganha-ganha ou perde-perde, dependendo de como eles jogam.
Entretanto, os interesses, ao longo do tempo, podem
divergir e causar o início de um novo jogo de soma zero, em que os sócios
podem se tornar concorrentes e, portanto, competir entre si.
No universo lúdico existem excelentes jogos de
estratégias que simulam, de forma bem criativa, essas circunstâncias. Um dos
mais populares é conhecido como War, um jogo de tabuleiro baseado no
Risk, da Parker Brothers, que surgiu nos Estados Unidos em 1952. No Brasil, o
jogo foi lançado pela Grow e conquistou rapidamente uma legião de fãs. O jogo
é disputado com um mapa do mundo dividido em regiões. Cada jogador recebe uma
carta com um determinado objetivo, e quem o atingir primeiro é o vencedor. O
jogo é disputado em rodadas, nas quais os participantes colocam peças
(exércitos) e atacam outros oponentes com auxílio de dados.
Nossa espécie é extremamente
curiosa e lúdica. Participar de jogos é uma característica
predominante em crianças e adultos
Uma partida pode durar horas, com disputas, sobretudo,
regidas pela estratégia de cada jogador e pela sorte lançada pelos dados. O
que chama a atenção é a formação de alianças para impedir que outro jogador
cumpra, de fato, seu objetivo. Da mesma maneira como uma aliança, entre dois
ou mais jogadores, pode ser feita, também poderá ser desfeita. Assim, a
dinâmica pode mudar completamente a cada rodada. Algum jogador pode se tornar
o bode expiatório e ser perseguido pelos outros até ser derrotado. Outro pode
ser protegido, sendo poupado de ataques. A formalização de contratos
condicionais, como "Se você não me atacar, eu não te ataco" ou
ainda "Se você o atacar eu te defendo" são bem comuns. Entretanto,
o cumprimento desses contratos nem sempre acontece.
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