sexta-feira, 26 de junho de 2015

O IMS apresenta no Rio de Janeiro a exposição Claudia Andujar: no lugar do outro com fotografias inéditas e pouco vistas da artista

A exposição Claudia Andujar: no lugar do outro fruto de dois anos de pesquisa no arquivo da fotógrafa, é a primeira grande retrospectiva de sua obra dedicada ao período que se estende da chegada da fotógrafa a São Paulo, em 1955, até as primeiras viagens para a Amazônia, no começo dos anos 1970. A mostra apresenta a extensa produção de Andujar nas décadas de 1960 e 1970, anterior ao seu envolvimento com os índios Yanomami.


O Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro abre em 25 de julho de 2015 a exposição Claudia Andujar: no lugar do outro. A mostra lança nova luz sobre a carreira da fotógrafa de origem húngara ao apresentar um panorama de sua produção anterior ao envolvimento com os índios Yanomami. O material, que abrange reportagens fotográficas e ensaios pessoais, inclui desde os registros documentais em preto e branco dos primeiros anos, em que se nota a influência de fotógrafos como W. Eugene Smith, até a intensa exploração gráfica do final dos anos 1960, momento em que Claudia experimenta com a fotografia colorida.

A mostra é dividida em quatro núcleos. O núcleo Famílias brasileiras apresenta um dos primeiros trabalhos de fôlego feito por Claudia no Brasil. Entre 1962 e 1964, a fotógrafa registrou o cotidiano de quatro famílias de contextos distintos: uma de fazendeiros na Bahia, uma burguesa na capital paulista, uma de caiçaras em Ubatuba (SP) e uma família religiosa de Diamantina (MG). Feito com a intenção de entender como viviam os brasileiros, Claudia almejava publicar o trabalho em uma revista, mas o perfil diverso do conjunto não interessou à publicação.

O segundo núcleo é formado por diversas reportagens desenvolvidas pela artista para a revista Realidade, onde trabalhou de 1966 a 1971. Criada em 1966, a publicação foi um marco na imprensa brasileira pela qualidade das reportagens e por reunir um time notável de fotógrafos, que incluía nomes como Maureen Bisilliat, George Love, David Drew Zingg, entre outros. A ousadia editorial da revista foi o ambiente perfeito para que Claudia se dedicasse a temas controversos que lhe atraíam.

Para a Realidade, Claudia documentou as polêmicas operações do médico-espírita Zé Arigó, em Congonhas do Campo (MG); a intensa atividade de uma parteira na pacata Bento Gonçalves (RS); a situação dos pacientes do Hospital Psiquiátrico do Juqueri, em São Paulo; a rotina de um viciado em drogas; uma sessão de psicodrama; e o controverso “trem baiano”, que periodicamente levava migrantes desempregados de São Paulo de volta a seus estados natais. Além de reportagens, Claudia também desenvolveu ensaios fotográficos para ilustrar matérias da revista. Fazem parte da exposição um ensaio sobre a natureza dos pesadelos e outro sobre um casal homossexual, cujas fotos não foram publicadas.

O terceiro núcleo é formado por três ensaios experimentais que a fotógrafa desenvolveu em São Paulo a partir de seu interesse pela cidade e pela figura humana. Fazem parte desse núcleo a série sobre a Rua Direita, os nus da série Sônia e fotos aéreas tiradas com filme infravermelho.

O quarto e último núcleo da mostra contém fotografias de natureza feitas durante as primeiras viagens à região da Amazônia, no começo dos anos 1970, ao longo dos rios Jari, Negro e Solimões. Claudia fotografou a paisagem da região com a mesma dose de liberdade e experimentação que marcou sua produção do período.

Em 1971, enquanto trabalhava numa edição especial da revista Realidade dedicada à Amazônia, Claudia entrou em contato com os índios Yanomami. A partir de então, transformou a documentação e a proteção desse povo em missão de vida. Seu trabalho como fotógrafa e sua atividade política à frente da Comissão Pró-Yanomami trouxeram contribuições inestimáveis ao país. Durante os anos que se seguiram, sua produção ligada aos índios se sobrepôs ao trabalho feito nas décadas anteriores.

É essa produção pouco vista e estudada que a exposição Claudia Andujar: no lugar do outrovem resgatar. Desde que chegou ao Brasil, nos anos 1950, Claudia mergulhou em realidades que desconhecia e se interessou por grupos fechados (como na série das famílias brasileiras), marginalizados ou isolados (como os adeptos do espiritismo ou os pacientes do Juqueri). Claudia usava a fotografia para entender o país que adotara, para compreender o outro e descobrir a si mesma.

Ao focar-se nas primeiras décadas de sua carreira, Claudia Andujar nos ajuda a entender a relevância, a originalidade e a complexidade da produção de uma das mais importantes fotógrafas brasileiras.



Sobre a artista
Claudia Andujar nasceu na Suíça, em 1931, e em seguida mudou-se para Oradea, na fronteira entre a Romênia e a Hungria, onde vivia sua família paterna, de origem judaica. Em 1944, com a perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial, fugiu com a mãe para a Suíça e depois emigrou para os Estados Unidos, onde foi morar com um tio. Em Nova York, estudou pintura e trabalhou como intérprete nas Nações Unidas. Em 1955, veio ao Brasil para reencontrar a mãe e decidiu estabelecer-se no país, onde deu início à carreira de fotógrafa.

Sem falar português, Claudia transformou a fotografia em instrumento de trabalho e de contato com o país. Ao longo das décadas seguintes, colaborou com revistas nacionais e internacionais, como Life, Aperture, Look, Cláudia, Quatro Rodas e Setenta. Em 1966, passou a integrar a primeira equipe de fotógrafos da revista Realidade. Recebeu bolsa da Fundação Guggenheim (1971) e participou de inúmeras exposições no Brasil e no exterior, com destaque para a 27a Bienal de São Paulo e para a exposição Yanomami, na Fundação Cartier de Arte Contemporânea (Paris, 2002).


Claudia Andujar: no lugar do outro
Curadoria: Thyago Nogueira
Abertura: 25 de julho, às 17h.
Visitação: de 25 de julho a 15 de novembro de 2015
Projeto expográfico: Martin Corullon e Helena Cavalheiro/Metroo Associados
Comunicação visual: Elisa von Randow
Lançamento do catálogo: agosto de 2015

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